quinta-feira, 3 de setembro de 2015

línguas de fogo



sem compreender
sem nada apreender
de par em par
estrelas e luas em desalinho
vento
alado nas árvores de madrugada
presságio no uivar dos cães ao longe
e água
límpida
fresca 
bebida no reverso das sedes
assim viver
ser aventurado
todo o universo
sem mais

(2008)

vacuidade





não há o vazio
porque já aí há forma
o informe também não há
só o querer alcançá-lo
que constrange 
a fonte é sempre deturpada pela sede
quando esta não é encarada como um jorro
e os pés 
a pele
os braços 
as mãos tão ávidas de realidade
os olhos tão repassados de imagens e alucinações
não se fazem ao Caminho
são feitos pelo Caminho
e não para ele
há neste vestir da vida a cada gesto
a cada pulsar cardíaco 
uma convocação
e uma fuga
o universo todo é um rasgar
o que se evade
talvez não queira saber de si
quem sabe...

(2008)

estar sempre a partir





nada se detém
o rio é interior
e arrasta árvores de raízes rasgadas
e cadáveres de crianças que já foram
labaredas de alegria e contentamento
e sonhos
mesmo os mais acalentados nos dias de desilusão
quanto mais os cravamos na dureza da terra
mais eles mergulham na corrente da noite que trazemos no coração
mais os dias são desgarrados e pesados
mais a vida é a margem onde se acumulam destroços e coisas inúteis
trazemos o mundo todo desmantelado e apodrecido
no lado de dentro dos olhos
onde o mar não é mar
e a noite é ter os olhos fechados
e o deserto é sentir a pele desistente por dentro
a boiar turvamente na lentidão das horas
por isso
pássaro
rumo ao reverso do entardecer
pássaro urgente
pássaro todo
sem interioridade
e o sol será essa queimadura de não conhecer fronteiras
essa alucinação de não ter que sim nem que não
para quê mais do que isso?
pássaro-me
e do avesso
o mundo que visto
parece sempre novo
e isso basta
para que as torradas todas as manhãs me saibam ao mesmo
o sabor da manteiga não se desgasta
e as flores na berma da estrada são sempre iguais ao que são
e o mesmo que nunca fui
não pode ser exilado
da terra a que pertence

de pés nús



de pés nus
engoli o sol
onde deuses suicidas 
brincam com o pulsar da noite
a treva incandescente
dança
alheio de mim
o que de mim sobrou
dos dias crestados de ser homem
o passado todo que não fui
de encontro ao que sou sem ter sido
ao ritmo do luar errante
grito gume do silêncio
posso ressuscitar
sem que o mundo se me desapareça?

(2008)

anjo




Se voares
tudo não voa contigo
para que voar seja a tua amálgama de tudo
a tentar conquistar o sol
e a treva que dardeja do interior do mundo de fora
promete-te
a frescura das ervas à sombra da elevação estival
da música de depois nos interstícios do canto das cigarras
e na queda
as asas do anjo
rasgarão as dimensões sem nome
de seres o gume e a carne em flor
e outra vez de novo
a verdade é espuma e vento
ossatura de não estares aqui

(2008)

perder(-te)



um segredo:
ter-te é perder-te
singrarmos
sangramento
sofrimento
largarmos a arder pelas veredas sonâmbulas de sermos nós
mesmo que no instante
gume cortante e repetido
porque partir é o salto na mão do sonho
no alto dos cumes
no centro da treva que há onde nos procuramos
sempre que queremos ser o que se mente
na saudade quando perdida de todas as ilusões que bradam ecos de termos sido
perder-te
no próprio acto de possuir o coração da noite
entre as sombras as cinzas e os medos
se o vento vem de dentro
trazer arrepios e vazios à roda solta de mais além
com as entranhas do mundo em convulsão
vergastadas de tédio e alvenaria de tempos idos
e o cheiro a incenso que o ar consente
tudo
até o reverso da solidão no lado intentado da pele
mesmo que aberta em flor e rastros de luz que passou de repente
até isso
é nunca te ter tido
no futuro de não seres tudo o que não te é para que sejas

(2008)

todos os versos





todos os versos
derramo-os sobre a pele da ausência de que és afinal
da impenetrável a correr de luz e sangue de inquieta e salgada não te ver
palavra
e derradeiro
nos mesmos olhos que se cruzam
nas mãos baças que se perscrutam
tentativas apenas tentativas
porque os dias são escassos para ir ao fundo
a vida mesmo se estendida ao sol nunca se desnuda da treva
e afinal és tudo
cada gota do tempo sorvida sem lábios ou língua
cada traço do desejo na areia rutilada de serpentes
e és o gume na língua cravado no acto de dizer o desfazer das preces
só serapilheira de encher buracos de treva nos leitos a arder onde o amor se consente
tudo
até a maresia com que vens na tarde equestre
até os silvos da noite nas certezas crestadas do sol no poente
até o quase a beira transbordante da plenitude
e no fim já te sabia

(2008)

toda a luz




toda a luz
amalgamada de espanto e esperança entardecida
na alba e na brandura das distâncias
tangida de pranto e segundos de opacidade
a minha paisagem em relicário
o meu desperdício de palavras ditas
a oxidar a pureza cristalina do silêncio
e não poder ser das pegadas ocultas no vento
apenas a sombra duma passagem
a frescura que fica nas margens da vida
apenas

(2008)

vejo-te



vejo-te
por momentos
entre duas partidas
já envolta de paisagens que virão
mais à frente daqui a um bocado
na sonolência de não poder chegar
quando as asas abertas do jornal se renderem de vez ao tédio
anjo que me percorres
à solta no meu sangue
vejo-te
e pergunto-me quantas estrelas
quantas
e que arados sulcam a terra de onde nasci
quantas sílabas despontaram
nas ranhuras escuríssimas do sol
anjo que me desaguas
no fim do desejo
vejo-te
perene e alucinação
e todos os passos todas as marcas todos os beijos
mesmo a luz e a treva toda a inquietude
o que são
despontam por entre o frio e o orvalho
a arder de saudade
ervas daninhas nos canteiros da manhã
e são tudo o que resta
os meus sonhos
tudo o que tenho

(2008)

Sintra



ah a minha terra
onde as flores são flores porque sim
minha terra sem fronteiras
onde me perco de mim

possa eu pisar-te inteiro
e sentir a vibração do mais fundo
possa alar-me na luz das tuas tardes
e deixar-me náufrago de ter sido eu
adormecer no seio da tua paz
minha terra
onde vivo

queria amar-te


Eu queria amar-te
giesta
só perfume e resistência
ardor do sol na pele
estrela
beijo de luz apenas
de manhã somente a comunhão secreta
hóstia de afagos
apenas sorriso e esquecimento

Eu queria amar-te
praia
areia de ouro sob os pés
doçura de haver com que contar as preces
a própria incompletude do infinito
luar
na taça invertida da noite
graal que nos restitui
porque sempre fomos só um
no futuro
de onde vens a cada momento

E queria amar-te
tudo
a tua jangada para depois
o teu arremesso no longe que te sabe
aventura
todas as correntes de ar
todos os sinos de repente
todas as flores não vistas
e a dança no reduto de mármore do silêncio

Era assim que queria amar-te
rumo sem partida
viagem do regresso
Senhora da Luz todo despido
a bordo da nau do Impossível


(2008)

longe



longe
na noite em que os beirais das casas sem gente por dentro
são repletos de andorinhas e sonhos desfeitos cobertos de musgo e líquenes esmeralda
a presença da desolação
faz com que os vidros que separam as coisas de estarem no fim
fiquem embaciados
e é possível desenhar neles com os dedos letras de ausência e incompletude
porque um dia passou por lá
quem estava de partida
lá onde o chão tem pedras do tamanho de romãs
algumas são pesadas e fazem doer a pele das mãos
outras apenas marginam o sítio onde se está
mas nem pegadas
nem restos de insatisfação
fica suspenso tudo o que não houve
no estendal da espera quando o vento é rubro e tem uma voz áspera
mas nem pegadas
só ervas e poucos sinais de ter havido um tempo que apontava para depois

(2008)

O caminho das flores



Segue o caminho das flores
As flores são frágeis
Mas nelas não há fraqueza
As flores são belas
E elas nada escondem
As flores têm uma vida breve
Mas têm o poder de se tornarem inesquecíveis
E aos momentos a que estiverem associadas
Como as flores
Nada escondas
E serás a beleza
Aceita os teus limites
E serás a força
Vive a vida plenamente a cada momento
E serás a Eternidade a usar o teu nome
E não te esqueças
Que a flor é a preparação do nascimento
dum fruto
Se a flor não cumprir o seu destino
A Vida não seguirá o seu curso
Por isso não te apegues ao que és
E serás
Mesmo que por breves momentos
A alegria do mundo
O sorriso do universo inteiro


(2008)

(re)começo



não espero
apenas acrescento às horas uns bocados de ter visto
uns restos de campanários na aldeia em que vivi a infância possível
tudo se acerta por essa vara cravada no chão
que obriga o sol a sangrar uma sombra
que aponta o agora como o que se entranha nas bocas acesas
de querer
amar é um estuque
e as paredes de estar à escuta
abaulam para fora e parece que a perdição engravidou
e vai dar à luz um navio de bruma
de onde os pássaros poderão cruzar as ânsias
e as expectativas
os pássaros dos dedos
unidos em bando nas mãos esquecidas
nuvens os pés
rochedos no peito são uma praia
o mundo todo
o corpo
de onde se evadiu uma alma secreta
mergulho a respiração é toda a atmosfera a iniciar-se
na lonjura de não ser
que sombreia as razões e os recessos da memória
parto
a vida é uma fome a levedar-se para dentro
há bocados de ter sido espalhados por aí
serão pasto das impossibilidades necrófagas

(2008)

Ternura



quem não puder ser eterno
que seja terno
que a ternura é um pouco mais que eternidade
é saber que na entrega mais pura
há muito mais que claridade
há todo o mundo a arder e a desfazer-se ao vento
não mais que um lamento de saudade
o querer durar para lá da brevidade
com que tudo se dá sem recusa
venha a noite
e depois o dia
e o que não vem com o haver dia e noite
e a torrente confusa
de acordar e não acordar e recordar
tudo encostado à insone quietude do esquecimento

(2008)

Saudação



o que não passa
fere e fica suspenso
na inconstância e no desconsolo
não passa
fica no coração
rubi de sangue e inquetação
e o mundo inteiro
uma sombra de não haver mais
fica pregado nas árvores póstumas
de haver salvação

(2008)

Soltura


vaga solta
o mundo todo numa chama
perdido está quem ama
secretos os anseios da escuridade
solta e perdida
a amargura e a saudade
tudo envolto na perdição de não ver
o fim e a consolação de acabar
solta no fundo do fundo do mar
rodopio e pedra perfurada
o coração submerso na transferência do nada
que move as raizes dos cardos
para o fundo para o avesso do chão
solta sem peso nem brandura
nem alvor nem morte nem torrente
vaga onda de lava
vagarosa e potente
as asas quase ainda só nervuras na pele percutida
pelo fulgor ferrugento do tempo não passado
e os pés plantados por cima da sombra duma macieira
todo o universo em perfume é maçã e apodrecimento
vaga secreta flama
secreta e rumorosa
agita-se ao fundo o que a sede regurgita
na alameda do jardim de não ter sido
presença apenas na pele do visível
planura rasura amarelo e assim
em breves luas se entorna
prenhe de estrelas e frio estatelado nas folhas de malva
na noite quase debruada a azul e continuação
secreta vaga que nada sustém
a voracidade vestida de branco como de manhã e gaze
uma alma
já sem quem
ainda amante e quase

(2008)

Distância



Na distância mora o fim dos meus rumos
O que dá às romãs o esquecimento
Do seu sabor ser apetecido
É treva densa a irromper do húmus

No vago torpor de cada momento
O princípio sempre já acontecido
A eterna saudade de não ter sido
Alucinação rubra e continuada

O pó da estrada de me perder
A noite revisitada da amurada
De ter partido um dia sem saber

Que a sorte não tem norte nem um porto
Chegar é quase ser tudo e estar morto
Lavrado de longes sou sem querer

(2008)

Alma





O sonho é uma goteira que pinga
Ou um bailado de poalhas de luz dourada
Aspergido das fendas do telhado da casa dos meus avós
Era eu menino
Uma casa marítima cravada sobre um penedo
No interior perdido da Beira Alta
São aterradoras as tardes de trovoada
No Setembro em que
Menino
Estou suspenso entre memórias e o esquecimento do que nunca fui
É também ali a casa da morte
Povoada de desistências e de noites rasgadas do uivo dos lobos
Com paredes negras porque ardeu muito antes de eu ter nascido
Sempre a conheci assim reconstruída de forma precária com o que sobrou
E depois de ruir ergue-se nas tardes em que um sentido alado me visita
O anjo da continuação
Que vive nas margens do ocaso
É plena a vida por isso a cortam as lâminas do tempo
A eternidade não se quer permanente
Está nas maçãs do sr. João
Que morreu há pouco tempo num lar da terceira idade
Como as suas maçãs alumiam a minha infância!
Uma vida que se reza é um salto daqui a nada
Não vivo então
Há nos pinheiros uma inteireza de dentro
Brotada do chão capaz de aprumar as lembranças
Num mastro de velas aladas até ao fim
E sobretudo há que não cortar as ervas que crescem ao acaso
Dão frescura às lembranças e trazem por momentos o aroma do princípio
Aos dias gastos por dentro se a vida for cinzenta e com medida
Como as solas dos sapatos os dias gastam-se
Usados tornam-se confortáveis e perdem a rigidez do que é novo
E dentro deles habituamo-nos ao que julgamos ser
Vivemos apenas

(Setembro de 2009)

Serenidade





Não tens rosto
E contudo pé-ante-pé
Suspensa no rebordo dos beirais
Acompanhas a solidão
O ranger das telhas parece que torna ocas as coisas
Mas eu sei que a aldeia em que brinco quando menino
Só tem casas pretéritas
Há muito sem telhado
Silenciosa viste cada ilusão
Como cal viva a borbulhar no interior da espera
A argamassa do tédio tem uma consistência esponjosa
Há sempre um lado de dentro quando se tem a consciência da imensidade
As vidraças ficam embaciadas da ansiedade com que se procura a novidade
mesmo ao dobrar da esquina sabe-se lá o que lá estará
sei-te apenas presente
aquífero e semente do fim
talvez fosse bom se agora viesses com a Primavera
a bênção das brisas que nada resguarda
nem o medo do frio
mas que sei eu disso

(Setembro 2009)