não sei dizer mais
talvez os instantes sejam pedaços de fim
e os restos de amanhã sejam meras sombras no chão morto
das esperas e das jornadas incompletas
a vida pode ser apenas isto
um despejo duma casa habitada longamente
um desamparo vindo de repente
tudo largado sem a possibilidade de resistir à chuva se vier a chuva
tudo o que sou
exposto aos elementos
na sombria desolação de ter que sim
a cinzenta argamassa do silêncio
a pesar nas margens do vento
a solidificar as paredes rugosas da memória
e é ali que te sei
com a força que resta no estar de pé
a saber do sol a comburência das horas cimeiras
e és a insubmissa presença do esquecimento
no caule das flores que ficaram no lugar onde havia um jardim
e os pássaros vinham lembrar-me a música que há na tua presença
ali onde havia um jardim
há um poço sem fundo
onde a água e a sede se transbordam
e as cordas do tempo rasgam ao meio
a carne pulsátil das melodias perenes
que invento de ouvido
só para ter-te
no interior da minha perdição

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