segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Do alto valor da Poesia e do que é sempre mais alto

A Poesia que interessa, a que descobre o ritmo que entrelaça os mundos, a autêntica consumação do que escapa à palavra e a todo o dizer, é o encontro, a vida pulsátil que se dá, toda ela, a beber e a ler aos outros.
Um afago.
Um pão.
Um cobertor na noite fria.
Uma palavra de consolo a quem já não tem olhos que lhe mostrem alguém que venha para si, para a sua beira, aí onde os pássaros ganham sempre mais impermanência, aladas presenças que por vezes não se vêem.
Essa a Poesia, a mais alta, a mais solene.
A que se pode encerrar em livros já está, de alguma forma manietada. Está muda, precisa de vidas pulsáteis que lhe insuflem o sopro que desperou Lázaro. Não é essa poesia que se derrama sobre as vidas, mas as vidas que inflamam o papel e o transformam num líquido que escorre de dentro duns olhos que perscrutam, uns olhos que sabem saborear a madrugada e os aromas que percorrem a proximidade.
E cada homem deve ser um Poeta, pois o viver é o Poema supremo. Sempre em acto, sempre inacabado.
Que os que amam se amem.
Os que se desconhecem que se procurem.
Os que se desencontram que se encontrem com outros.
Mas que ninguém se refugie no silêncio das letras, na alvura das páginas onde a luz se derrama e não encontra vida, mas saiba que é do Coração que nasce a voz que ressuscita o Poema.
O Coração, a Nave Secreta que transborda palavras e transporta os sonhos até onde eles possam florescer na terra.
Que alto valor tem a poesia? Nenhum. Só há poesia escrita porque os homens se esqueceram do que são e os poetas, os que escrevem poemas, são dos raros que se mantêm próximos do modo de ser primitivo dos homens. Um modo de ser que as outras vidas esqueceram, até já nem se lembra que vive, a esmagadora maioria dos homens.
A literatura? O que vale mais é a vida, a respiração, o calor da pele, um beijo, a corrida em direcção ao mar e o mergulho na espuma e até a morte, valem mais que qualquer poema.

Sem comentários: