segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Dois são nenhum

sabias?

Ter uma espiral de medos e culpas em fuga

a vertiginar por dentro dos olhos

caracol que o orvalho do tempo não desperta

para o sol de haver um dia novo em cada dia

e uma eternidade de não haver dias iguais

em cada hora de cada segundo de cada minuto de ser o tempo a alar-se

é isso que torna o amor urgente

o saber que tocar-te é destocar-me

o abraçar-te é desabraçar-me

o viver-te é desviver-me

astro esquecido das combustões que criam mundos

sabias?

Nos teus seios a minha angústia é todo o néctar

de todas as vinhas

de todos os secretos desejos do deus que se quer perder de si

mas guelras das tardes em que a tristeza mergulha nos ritmos de nunca

ter havido homens

nem mulheres

apenas sedes

de pele cravada de espínhos do Impossível

e no amor não há encontro

só desabituação se o amor é vero

só morte completa se o amor é fero

a morte dançarina

o não princípio

o não fim

o não em mim

o não em ti

a impetuosa ascenção ao coração fulgurante do Abismo

os teus olhos a brilhar estrelas de não ter sido

e o silêncio

a serrilhar a armadura de gesso

das palavras que pronunciamos para nos dizermos

quando acreditamos que somos pedaços de ânsia metafísica

que a vida desgasta na incomburência dos perdidos

a tua carne florescida

a tua pele na musicalidade da respiração que se exalta

a viridiscência de estarmos no rebordo da perdição

que torna as palavras desmoronamentos do sentido

dos sentidos

da necessidade de sentir

a desnecessidade de nos amarmos

sabias?


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