sábado, 6 de setembro de 2008

Haruki Murakami (n.1949).

Um escritor japonês contemporâneo que nos coloca em contacto com um imaginário arrebatador.
Nos seus livros estabelece-se uma ponte entre o realismo e o surrealismo, suspendendo nela as nossas crenças mais básicas que ficam, como que por um golpe de prestidigitador, dependentes dos fios aracnídeos da narrativa. E o nosso olhar sobre o mundo não volta a ser o mesmo. Essa teia translúcida fertiliza-nos o olhar, subtiliza-nos a pele. E tornamo-nos viajantes na nossa própria terra e no nosso quotidiano. Chegamos até a encarar as coisas usuais com estranheza. O que é fabuloso.
Trata-se duma experiência duma leveza incrível a leitura dos livros deste autor tão distante e tão próximo da nossa realidade. É uma leitura "amigável" que se anicha em qualquer espaço do nosso lazer, mesmo naqueles espaços minúsculos em que estamos entre quaisquer duas coisas que monopolizam a nossa atenção. Sentamos-nos, abrimos o livro e a realidade entranha-se na nossa leitura e, em vez de a tornar mais difícil, confere-lhe um ritmo suave e envolvente.
Para começar a aventura da descoberta deMurakami qualquer livro será bom. Mas não resisto em partilhar e aconselhar a minha porta de entrada:

"Porque é que o sol continua a brilhar?
Porque é que os pássaros continuam a cantar?
Será que, por acaso, eles não saberão
Que o fim do mundo já chegou?"
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"Abandonei a minha sombra.
O guardião fez com que eu me dirigisse para um terreno vazio pero da porta. O sol das três horas da tarde desenhava nitidamente a minha sombra no chão.
- Não te mexas, disse o guardião.
Ele tirou uma faca do seu bolso e fez deslizar a lâmina afiada entre a sombra e o chão, remexeu-a um pouco da esquerda e da direita para tacterar o terreno e, depois, com um movimento hábil, arrancou a minha sombra do chão.
A sombra tremeu um pouco como para se defender, depois, finalmente, estirou-se sobre a bancada: arrancada da terra ela perdera todas as suas forças. Uma vez separada do meu corpo, a minha sombra tornou-se num ser mais miserável do que eu alguma vez poderia pensar, com um ar desgastado.
O guardião guardou a lâmina da sua faca. Eu e ele , contemplámos por um momento essa sombra separada do seu corpo."
p.82

Mas existe um número significativo de obras de Murakami traduzidas para Português, qualquer delas poderá ser um bom porto de embarque.
E podemos sempre explorar alguns roteiros de viagem:
http://corrida-de-ratos.blogspot.com/2006/05/haruki-murakami.html
http://orgialiteraria.com/2007/09/kafka-beira-mar-haruki-murakami.html
http://booksatcorner.blogs.sapo.pt/23396.html
http://www.portaldaliteratura.com/livros.php?livro=3996
http://en.wikipedia.org/wiki/Haruki_Murakami
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