muitas mortes se morre a vida de um homem
muita terra agarrada aos pés
depois dos sonhos e das desgraças
o tempo despassa-se desatam-se os nós dos dedos
perdidos em labaredas de carne e antecipação do que não se percute
sem a promissão
o repouso sente-se como a queda duma pedra rugosa num poço
já sem o rumor silvante do balde de zinco a levar a sede ao profundo da água
só a presença da água sem sede
brotada do chão pela precisão da elevação das marés
do interior da terra esse mar que leva as vidas para o abismo da proximidade
sem a penumbra
que acende o crepúsculo de longes que sorvem a luz para o além do que termina
a solidão torna-se quase imperceptível
no sangramento verde de ter a esperança a enferrujar nas foices gastas pela tenacidade do trigo
sem desistência
com a constância de quem se rasga e se estende
há que lavrar o impossível
e não permanecer

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