perderam-se os dias da benção
e da harmonia
partiu-se o cordão que os mantinha unidos
e que permitia que fossem passados na mesma cadência
e rolaram pela terra escura do chão
cheia de buracos
semelhantes a sorrisos
e ouvi-os um a um a bater lá no fundo
lá onde as coisas se desmancham quando esquecidas
e um dia é repleto de coisas
ainda lembro o estrondo de cada abrupto estilhaçar
dos cristais
e das porcelanas finíssimas de que cada dia é feito
agora não posso andar descalço na fundura de mim
porque posso ficar com os pés cravados de estilhaços
das lembranças que se despegaram da minha vida
tenho que esperar que as formigas devorem os açúcares
e os pólenes das horas que vivi sem razão
ficará apenas o que for desconexo
um cemitério de esqueletos alvos
e entregues à sedência de todas as sedes
a pingar debaixo para cima
até que o sol possa boiar
nos sulcos que os pássaros deixaram nos céus
tanta água
e tanta passagem para além
talvez a areia de estar aqui
forme uma praia
de baixo para cima
com um oceano a engolir as estrelas

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