segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Poema do gato

hoje quero ser gato

dos que pascem
os haustos da tarde
nas cordas do violino que arde
as agruras das arestas rotas das pedras

quero ser todo o Egipto
embalsamado na escada em caracol do espanto
um riso engalanado de pranto
androceu em corolas de fantasia
o livro que ninguém leu
esquecido sob a vermelhidão do ocaso

quero ser o andarilho do acaso
o perdido na feira de papel
todo feito carrocel
e algodão doce sem chama
riscas tristes dum pijama
sem seios fartos por baixo ou por cima

quero ser um touro de rima
e as farpas sovantes do tédio
sou louco sem remédio
e se isso me aproxima
da soltura do hospital
estou pronto
venha a camisa de forças

mas mesmo assim ninguém me tira
o riso alado de espuma
sou rei de cousa nenhuma
nem saudade afinal

o ímpeto que se aduna
à perdição matinal

Sem comentários: