Poema do gato

hoje quero ser gato

dos que pascem
os haustos da tarde
nas cordas do violino que arde
as agruras das arestas rotas das pedras

quero ser todo o Egipto
embalsamado na escada em caracol do espanto
um riso engalanado de pranto
androceu em corolas de fantasia
o livro que ninguém leu
esquecido sob a vermelhidão do ocaso

quero ser o andarilho do acaso
o perdido na feira de papel
todo feito carrocel
e algodão doce sem chama
riscas tristes dum pijama
sem seios fartos por baixo ou por cima

quero ser um touro de rima
e as farpas sovantes do tédio
sou louco sem remédio
e se isso me aproxima
da soltura do hospital
estou pronto
venha a camisa de forças

mas mesmo assim ninguém me tira
o riso alado de espuma
sou rei de cousa nenhuma
nem saudade afinal

o ímpeto que se aduna
à perdição matinal

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