quinta-feira, 27 de novembro de 2008


o espaço é uma lâmina de bronze
onde se reflecte o fulgor das esperas e dos dias
e com um pincel da mais pura seda de ter sido
nele pinto a purpurina dos ocasos e a lassidão das partidas
e até um perfume que me invento fica a pontuar as ausências e os desencontros
com travos de canela e alecrim
e guardo tudo num invólucro de escuridão e desapego
e quando a tarde finda a realidade fica a pairar entre tantas distracções
que a noite só consegue submergir um pouco da dor e do abandono
és o que a noite deixa incólume
por isso a ti regresso todas as manhãs
e fico à espera que o sol acorde o teu rosto
no piar dos pássaros e na fulgurância das coisas mais quotidianas
e até o orvalho sorvo com os olhos
essa tua pele de seres quase líquida em saudade e discrepância
quando as manhãs são um vau e um intervalo
entre duas margens de estar alucinado

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