rasgura

(depois duma semana de luta, com a febre e com os afazeres que, mesmo assim, não puderam ser interrompidos, deixo aqui um poema, para que sim...)


deixa que os sonhos se interliguem com a espuma e a brisa e o tempo em remissão
sobre os seixos e as mãos gretadas
que se soltem da casca de terem sido sonhados
e se tornem um com as mãos que afagam as pétalas incompletas do que passa
entre dois assomos do que há além dos caminhos acesos na brusquidão da paisagem
desgarrada
deixa
a pele liquefeita de cada vez que vêm as lembranças e os acenos
é só uma guarida efémera para um bicho que escuta e espera
e a espera e a escuta são pasto dos bichos que de noite habitam a madeira sem seiva
o seu labor é permanente e parece dar mais inconstância à permanência das coisas gastas
são insaciáveis
e aos poucos fazem com que a consciência regresse ao pó de onde veio
porque as estrelas também são inconstantes
e há uma poeira de luz que nos incendeia o espaço do lado de dentro dos olhos
breve
breve e em sopro de não querer ser rochoso
o tempo dá-te uma clareira e um não regresso
e será nessa tarde que tudo continuará como dantes

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