Os imortais


Há homens que vivem assumindo da vida o que ela tem de doação e de entrega, sem a necessidade de auto-engrandecimento, ou a ânsia de dominação, ou, até mesmo, a vaidade da virtude, assumida como um sacrifício digno de nota ou de respeito.
Nascem e como nascidos são o que a vida lhes traz. Crescem e com eles dentro o mundo cresce, mas tudo permanece igual, uma mansidão que nutre mas que não se quer dar a ver como coisa meritória.
E morrem. Com a mesma simplicidade, o mesmo silêncio, a mesma escuta do essencial, sem o estilhaçar da permanência do amor e da incondicionalidade da entrega.
Deixam, talvez, uma lápide, provisória lembrança dum viático, numa floresta de mármore a afundar-se no esquecimento. Nem livros, nem "obras" de vulto, nem fama, nem marcas indeléveis na pele monstruosa da vida, esse monstruário de vaidades e gestos egolátricos.
E também não deixam sofrimento nas margens do caminho que fizeram. No pior dos casos, deixaram tudo como estava. Mas muitos houve que sentiram os seus afagos nos maus momentos. Segredados, quase como se obedecessem a uma mecânica de embelezamento da vida.
No seio do narcisismo reinante, são uma luz. No calor do estio da vida ao sabor do que há, são uma sombra cuja frescura vem mesmo de dentro, do seu ser arbóreo e equidistante das fontes primordiais.
São eles que saciam a sede dos errantes. Os que não precisaram de mestre ou de doutrina.
É por eles que virá a paz ao mundo. Se tiver que vir a paz só poderá ser por eles.

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