terça-feira, 8 de dezembro de 2009

a vida é imperfectível

Não precisa de céu

Quem caminha no ermo da contemplação

Não precisa de imensidade

Quem vislumbra o que não há em tudo o que se vê

A alba fundura quase repleta de sede fresquíssima

A brotar do fundo escuríssima noite de ser homem e tudo o mais

Na orla do desejo de partir

Os pés alados as mãos afeitas à brisa corcéis de fogo preso

À desventura de haver ainda o que se dê conta da agudeza dos dias

Não precisa de si

O que se solta na perdição na alvura do sem depois

Não precisa de amparo

O refúgio supremo é o abandono

A insistência na largura das manhãs quando o sol não é mais que o sol

Tudo o que é feito de propósito está embrulhado em perfeição

A forma é dilacerante porque é definitiva

A dor de ser é ilusão e vontade duma verdade que deve ser deixada em paz

É luciferina a concretude da matéria

É melhor comer as maçãs com a casca

A prisão eidética que acorrenta coisa nenhuma ao sabor de maçã

E ao gosto de comê-la pode bem ser mastigada

Deglutida digerida

Defecada

Assim com tudo o que se diz substante

Nem com todo o armamentário categorial se deve aprisionar o que não é para ser

Soltos por fora forçados por dentro a ser uma impostura

Louco é só o que não acredita na loucura

Depois de apagada a luz é que os fantasmas de noite se tornam irreais

Transitório é só o que permanece na memória sob o signo do acabamento

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