a alma

A alma não se acalma

com morangos hidropónicos

nem com gadgets nipónicos

com fios em vez de veias

a rosácea dum rosto

na antecâmara do ir além

róseos lábios de carne acesa

no sem refúgio da perdição

a alma não tem alma

só a profundeza do coração

só a agudeza da inquietação

nos mastros de ter partido

o vento soprado do longe

a hybris de ter nascido

não tem terra a visão da alvorada

a cintilação do mundo

na retina que cega de rotina e satisfação

é fome e nada mais

não se acalma com a ondulação inconstante

de não ser daqui

é matéria e tudo o mais

a montanha da montanha

o mar do mar

a imensidade da imensidade

a alma da montanha do mar da imensidade

búzio de se descobrir na praia

a escuta que a si própria se alimenta

extravasa o acto de escutar

a cada momento morre no fundo do mar

o que acima da terra se eleva

as asas são feitas de sol e maresia

a alma é volátil

destapada evapora-se pelo gargalo de ser alguém

comam-se os morangos a saber a terra

a vida higienizada é um opiário de aviário

é uma merda de placidez que só consola

os fatos do acordo ortográfico

são para vestir e para analisar

em busca de porquês

destoam sempre com camisas sem gola

embora possam usar-se sem gravata


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