domingo, 18 de abril de 2010

a Primavera só existe se acreditarmos que houve Inverno

não há primavera

nos campos eternos

na nervura do mundo

que acende nos olhos

o fogo das constelações perdidas

que mostram um céu invertido

no fundo abissal

onde a treva rebrilha ao som furtivo

das lâminas impregnadas de longe e terminação

não há retorno quando o princípio é a alada expansão

de não ter que haver depois

a exacta geometria da contemplação

vulcão de agonia mental

interrogar é sentir a ondulação do oceano sem começo

os ossos em flautas convertidos

harmonia da carne que é vegetativa anunciação do efémero

por momentos a maré vazia descobre as rochas do abandono

por momentos inamovíveis e peremptórias

nada nasce

o esquecimento dá a aparência de nascer às vidas transitórias

o eterno é instante

terrível abrupto inclemente

são as palavras ânforas no bojo dum navio naufragado

restos de viagem na impossibilidade de chegar

chega um momento em que a vida é só isso

a espera crava-se na nudez da fantasia

e fere de firmamento a capacidade de desejar

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