No limite


no topo do mundo
a montanha do interior expande-se
abre-se em catadupa sobre os abismos silentes
os olhos cansados e dementes
perdem-se do hábito de haver um eu que os guie
alucinados de nenhuma aventura
impura visão a que se surpreende
suspensa da vida
como um casulo

o nada vagaroso corrói a impaciência
rasga-lhe sulcos de intemporalidade
até a deixar em carne viva parturiente
ausente de uma razão agregadora
é o desafio da imensidade
transposto o umbral da inquietude
não há verdade que queime as ervas secas do impossível
no estio da meia idade
já o sol come a cal das paredes da infância
como se o mundo fosse só uma sombra
uma passageira sombra que se esvai com a tarde

nada é como era esperado
não há nada de garantido na vida
o vôo da liberdade irrestrita
vive no coração ardente do pássaro
por mais concretas que sejam as gaiolas que o concretizam
o susto do não acontecido é possível a cada momento
a cada pulsão passageira
o fim e o princípio no colapso das certezas que se amontoam
no dia a dia

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