Alma





O sonho é uma goteira que pinga
Ou um bailado de poalhas de luz dourada
Aspergido das fendas do telhado da casa dos meus avós
Era eu menino
Uma casa marítima cravada sobre um penedo
No interior perdido da Beira Alta
São aterradoras as tardes de trovoada
No Setembro em que
Menino
Estou suspenso entre memórias e o esquecimento do que nunca fui
É também ali a casa da morte
Povoada de desistências e de noites rasgadas do uivo dos lobos
Com paredes negras porque ardeu muito antes de eu ter nascido
Sempre a conheci assim reconstruída de forma precária com o que sobrou
E depois de ruir ergue-se nas tardes em que um sentido alado me visita
O anjo da continuação
Que vive nas margens do ocaso
É plena a vida por isso a cortam as lâminas do tempo
A eternidade não se quer permanente
Está nas maçãs do sr. João
Que morreu há pouco tempo num lar da terceira idade
Como as suas maçãs alumiam a minha infância!
Uma vida que se reza é um salto daqui a nada
Não vivo então
Há nos pinheiros uma inteireza de dentro
Brotada do chão capaz de aprumar as lembranças
Num mastro de velas aladas até ao fim
E sobretudo há que não cortar as ervas que crescem ao acaso
Dão frescura às lembranças e trazem por momentos o aroma do princípio
Aos dias gastos por dentro se a vida for cinzenta e com medida
Como as solas dos sapatos os dias gastam-se
Usados tornam-se confortáveis e perdem a rigidez do que é novo
E dentro deles habituamo-nos ao que julgamos ser
Vivemos apenas


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