Soltura


vaga solta
o mundo todo numa chama
perdido está quem ama
secretos os anseios da escuridade
solta e perdida
a amargura e a saudade
tudo envolto na perdição de não ver
o fim e a consolação de acabar
solta no fundo do fundo do mar
rodopio e pedra perfurada
o coração submerso na transferência do nada
que move as raizes dos cardos
para o fundo para o avesso do chão
solta sem peso nem brandura
nem alvor nem morte nem torrente
vaga onda de lava
vagarosa e potente
as asas quase ainda só nervuras na pele percutida
pelo fulgor ferrugento do tempo não passado
e os pés plantados por cima da sombra duma macieira
todo o universo em perfume é maçã e apodrecimento
vaga secreta flama
secreta e rumorosa
agita-se ao fundo o que a sede regurgita
na alameda do jardim de não ter sido
presença apenas na pele do visível
planura rasura amarelo e assim
em breves luas se entorna
prenhe de estrelas e frio estatelado nas folhas de malva
na noite quase debruada a azul e continuação
secreta vaga que nada sustém
a voracidade vestida de branco como de manhã e gaze
uma alma
já sem quem
ainda amante e quase

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